terça-feira, abril 26, 2016

Opinião: espero que os jornalistas não venham a ser os coveiros dos Papéis do Panamá

Começo a temer a possibilidade de os jornalistas poderem ser os coveiros do dossier polémico intitulado Papeis do Panamá, descoberto graças a uma denuncia anónimo - a exemplo do que aconteceu com o Luxemburgo Leaks e outros casos - e não por causa de uma investigação jornalística.
O que se pretende saber, no caso de Portugal e da Madeira, é se há negócios feitos no quadro do offshore registado nos Papeis do Panamá - as operações parecem centrar-se nas Ilhas Virgens Inglesas e Americanas, nas Caraíbas - por empresas nacionais ou regionais, pertencentes a sócios nacionais ou madeirenses devidamente identificados, que desta forma fugiram aos impostos em Portugal e na Madeira.
O problema é que parece haver uma obsessão doentia e triste nas várias investigações jornalísticas até este momento realizadas  em Portugal já que para os mentores da investigação jornalística(?) feita a reboque da tal denúncia e da fuga de informação anónimas, parecem limitar-se a uma caça ao nome.


O que tivemos em Portugal, até hoje, foram nomes, apenas e só nomes, onde se mistura tudo. Tirando as patifarias do GES e do BES - que não surpreendem, dada a dimensão da roubalheira e da aldrabice atribuídas a este grupo financeiro sob investigação judicial - muito concretamente o que temos de concreto se não apenas dúvidas: que empresas directamente ligadas a Portugal ou à Madeira, estão de facto, e enquanto tal, associadas aos offshores constantes dos Papeis do Panamá e que negócios realizaram elas no quadro das offshores registadas naqueles documentos? Que gestores - identificação - estão envolvidos nisso?
Ao contrário por exemplo do ministro espanhol Soria, que se demitiu também da liderança do PP das Canárias, de onde é  natural, o problema que esteve na base da sua demissão está comprovadamente relacionado com uma empresa familiar de produção e comercialização de tomates, da qual Soria foi mentor e gestor, havendo vários documentos assinados por ele no processo de formalização da constituição dessa empresa que efectuou diversos negócios nas offshores, portanto à margem da fiscalidade espanhola ou canariana.
O que se passou com o demissionário primeiro-ministro islândes é que ele esteve associado a uma empresa registada e com actividade no âmbito de vários offshores denunciados pelos Papeis do Panamá, empresa essa que depois terá passado para o nome da sua mulher, mas isso não invalida que o envolvimento do antigo chefe do governo da Islândia tivesse tido motivo mais do que suficiente para se demitir.
Mas, por exemplo, já no caso de Cameron, primeiro-ministro inglês, ficaram pelo caminho todas as tentativas para o forçarem a demitir-se só porque o pai teve uma empresa registada numa offshore, que registou lucros dos quais Cameron beneficiou. O mesmo se passou com um ministro do governo italiano que comprovadamente não fazia parte, nunca fez parte, de uma empresa familiar de serviços financeiros que estava registada também nos Papeis do Panamá.
Ou seja confunde-se tudo. A caça aos nomes em Portugal - e será bom que os dois jornalistas, da TVI e do Expresso, inverterão um pouco esta sua linha de orientação - pode constituir a antítese do que se pretende em termos de esclarecimento da verdade.
As procurações de natureza judicial são normais nestes processos e não representam qualquer crime. Tal como não é crise ter uma empresa em offshores. Se as empresas recorrem a gabinetes de advocacia, se os advogados estão autorizados a trabalhar no âmbito também do apoio à constituição de empresas no quadro dos offshores, se, repito, não é crime alguém deter uma empresa registada num offshore, o que é que adianta estar um advogado ou um gestor, político ou não, identificados numa procuração para fins judiciais ou prestação de serviços de assessoria financeira a empresas que realizem actividades offshore devidamente legalizadas e particularmente no caso concreto do CINM que repetidamente tem sido apresentado como uma uma realidade que hoje nada tem a ver com a actividade dos offshores? Qual é o problema? Qual é o crime? Qual é a ilegalidade?
O que eu pretendo desses dois jornalistas, e penso que os portugueses de uma maneira geral também, é saber que empresas nacionais ou regionais, que gestores portugueses ou madeirenses, realizaram actividades ilícitas, em que empresas, em que negócios -quando, que tido? - através de que esquemas offshores ilegais, etc.
Esta caçada às bruxas, neste caso esta caça aos nomes, poderá ter como consequência - e já começamos a notar isso - uma progressiva desvalorização do assunto em termos de presença nos média, se quiserem uma desvalorização por parte das pessoas em termos de atenção aos assuntos mais mediáticos. A maioria esmagadora dos cidadãos não sabe o que são os offshores, que empresas ali actuam, porque existem offshores, que negócios são realizados, que ilegalidades são cometidas, etc. O que os cidadãos precisam de saber é se uma determinada casta elitista (?) usa os offshores e outros esquemas mafiosos para fugirem aos impostos e encherem a pança assistindo de sofá ao facto do coitado do zé pagode ser obrigado a pagar todos os anos impostos que graças ao governo de Passos e do CDS de Portas representam hoje uma das mais escandalosas  e vergonhosas roubalheiras de que há memória feitas ao nosso povo. Sem esquecer o contributo desses oportunista patético e oportunista, Vítor Gaspar autor do tal "enorme aumento de impostos" patrono deste roubo aos cidadãos mas que foi a correr agarrar-se a um tacho internacional, roubando aos "clientes" explorados pelos lucros do FMI,  mais de 20 mil euros mensais em salários sem pagar impostos por isso.
É por isso que temo que os jornalistas corram o risco de acabarem por ser os coveiros deste enorme manancial de documentos. Pessoalmente estou-me nas tintas porque é fácil perceber quem poderá estar envolvido na parte mais negra e ilegal deste escândalo financeiro.  Um escândalo que só será mesmo escândalo não porque a TVI ou o Expresso o digam em primeira página, mas por tudo o que de ilegal vier a ser descoberto. E sobre isso zero. Aliás, também em Espanha, exceptuando o caso de Soria e da empresa da sua família, o cenário é rigorosamente o mesmo. Basta ver as edições online dos principais jornais espanhóis - incluindo o El Confidencial que é o parceiro espanhol do consórcio de jornalistas a quem foram entregues anonimamente os documentos - para percebermos que o espaço informativo dedicado ao tema tem vindo a desvanecer-se. O pior que pode acontecer era a montanha parir um  rato. O jornalismo seria o principal derrotado, por inércia, por incapacidade, por incompetência. E para mim isso seria, caso venha a acontecer, o pior desfecho de tudo isto (LFM, cartoon de Henrique Monteiro)

2 comentários:

Anónimo disse...

A 9 de Maio o senhor Luís Filipe Malheiro terá a oportunidade de pesquisar a base de dados dos 'Panama Papers'.

Luis Malheiro disse...

Cá estarei para perceber se tenho ou nāo razāo no que referi no meu texto de opiniâo